Erbo Stenzel e o granito mais famoso da cidade

Thiago Pacheco

Nascido em Paranaguá, em dezembro de 1911, Erbo Stenzel logo veio com a família para Curitiba, e começou seus estudos na Escola Alemã. Ainda jovem, foi pupilo de João Turin e Lange de Morretes. Mais tarde, mudou-se para o Rio de Janeiro, para frequentar o Liceu de Artes e Ofícios e a Escola Nacional de Belas Artes. Permaneceu na então capital federal até 1949, quando voltou a Curitiba e assumiu uma cátedra na Escola de Música e Belas Artes do Paraná, além de ter desempenhado diversas incumbências públicas, como inspetor de alunos da Secretaria de Educação, e de integrar comissões de julgamento em exposições e salões de arte. 

Erbo Stenzel chegou a fazer gravuras, mas são as esculturas suas obras mais famosas – e justamente o talento de Stenzel para ela é que chamou a atenção do mestre João Turin. Poucos artistas, aliás, podem reclamar a honra de criar marcos, referências em uma cidade, e Stenzel é um deles. Por ocasião do centenário da emancipação política do Paraná, foi encomendada uma obra de magnitude compatível à da efeméride. Stenzel, que já era reconhecido como exímio criador de bustos, é escolhido, e produz, conjuntamente com Humberto Cozzo, sua mais famosa obra: a estátua do Homem Nu, localizada na Praça 19 de Dezembro, junto ao memorial do Centenário da Emancipação. Aliás, o nome “oficial” da praça quase não é usado: a data da emancipação foi trocada pelo altivo ser que a simboliza, e a praça virou “Praça do Homem Nu”. Anos depois, foi acrescida a escultura de uma mulher, a representação visual da justiça, mas despida de seus usuais paramentos. O homem, aliás, simbolizava justamente o “nascimento” do Paraná, com a postura altiva de quem começa a caminhar. 

Havia, no entanto, um problema: a escultura da mulher, de acordo com alguns, não era destinada à Praça 19 de Dezembro, mas ao Tribunal de Justiça, havendo algumas inconsistências de proporção e anatomia entre as duas obras – aliás, ambas da lavra de Stenzel e Cozzo. Mas, como se diz, o resto é história: a mulher ficou acompanhando o homem naquela que talvez seja um dos principais marcos da Cidade.

Mas há mais: nos fundos do Paço Municipal, conhecida popularmente como “Maria Lata ‘dÁgua”, a escultura “Água pro Morro”, de 1944, é outra obra importante de Erbo Stenzel que pode ser visitada à vontade, em uma caminhada pelo centro da cidade. 

Stenzel chegou a ter um museu dedicado à sua obra, e que ocupava justamente uma casa de madeira em que ele havia residido. A casa foi transferida para o Parque São Lourenço, onde o museu funcionou até 2009, quando foi desativado para reformas que seriam reliazadas pela Fundação Cultural de Curitiba. No entanto, a reforma nunca se realizou e, infelizmente, a casa queimou completamente em um incêndio ocorrido em 2017. 

O granito, felizmente, não queima com tanta facilidade. 

O pai norueguês da pintura paranaense

Thiago Pacheco

Alfredo Andersen nasceu em 1860, na longínqua Cristianssand, cidade portuária no sul da Noruega. Filho de um capitão da marinha mercante, Andersen estudou pintura na Academia de Belas Artes de Copenhague, capital vizinha à sua terra natal, antes de empreender a viagem marítima que o traria ao Paraná. Seu objetivo era chegar à Argentina, mas uma parada em Paranaguá, onde aportou em 1893, para reparos na embarcação em que viajava, fez com que Andersen prestasse mais atenção aos arredores e resolvesse ficar.

Em 1902, se muda para Curitiba e passa a lecionar no próprio ateliê – e, depois, também no Colégio Paranaense, na Escola Alemã e na Escola de Belas Artes, entre outros. Andersen, de certa forma, ajudou a criar uma “cena” artística em Curitiba, coisa que era ainda era muito incipiente na cidade: exposições eram raras, galerias de arte mais ainda. O estilo do pintor mesclava caracteres impressionistas, realistas e românticos, e sua obra pode ser dividida em três fases: norueguesa, litorânea e curitibana, composta principalmente por retratos e paisagens. Telas como “Duas Raças”, “Lavando Roupa” e “Porto de Paranaguá” se destacam entre seu prolífico trabalho – que pode ser visto no Museu Casa Alfredo Andersen (http://www.mcaa.pr.gov.br), ao lado de obras de seus discípulos e outros objetos associados à trajetória do mestre norueguês que se tornou curitibano.


 (Autoretrato, 1926)

(Vista do Porto, 1895)

As paisagens e retratos de Guido Viaro

Thiago Pacheco

Guido Viaro pode não ter nascido em Curitiba, mas aqui ele se radicou definitivamente, e se tornou paranaense. Viaro é italiano de nascença (Badia Polesine, 1897), e chegou a servir a marinha daquele país na Primeira Guerra Mundial. Veio para o Brasil, onde chegou no final dos anos 20, depois de estudar pintura em viagens pela Europa. Seu plano original era fazer uma parada e tentar ganhar algum dinheiro antes de ir para o México – mas ele acabou ficando. 

Viaro trabalhou com Poty, de Bona e Alfredo Andersen, e, mais adiante, ajudou a fundar a Escola de Música e Belas Artes, lecionando lá desde o ano de sua inauguração.

Suas telas vão de naturezas-mortas a paisagens e retratos, em que há influência expressionista mas um traço de marcada identidade. É tido por alguns críticos como o artista que melhor capturou os panoramas paranaenses – ele costumava retratar tano o litoral quanto o interior, sendo algumas de suas obras mais conhecidas paisagens de Morretes e Guaratuba.  

Os retratos são um espetáculo à parte – fortes e dramáticos, causam uma profunda impressão. 

Entre 1975 e 1995, a Prefeitura de Curitiba manteve um museu em que sua obra podia ser apreciada – com o fechamento, a família do artista reuniu sua obra e criou um museu privado, localizado próximo à Reitoria da UFPR (http://www.museuguidoviaro.com.br/). 


As linhas e passes de Lolô Cornelsen

Thiago Cantarin Moretti Pacheco

Poucos foram tão versáteis quanto Ayrton Lolô Cornelsen. Arquiteto e Engenheiro, o curitibano formou-se simultaneamente nos dois ofícios, pela Universidade Federal do Paraná. Um dos últimos “modernistas”, as casas que projetou e ainda podem ser vistas nas ruas de Curitiba são facilmente identificadas: linhas retas e fortes, fachadas amplas. Algumas, infelizmente, foram demolidas na calada da noite, ilegalmente, para dar uma curva no tombamento; outras sucumbiram aos humores do mercado imobiliário e deram lugar a obras bem menos interessantes. Um dos exemplos mais conhecidos era a antiga casa do Governador Paulo Pimentel, na alameda Presidente Taunay, no bairro do Batel – até o mural colorido é (ou, desgraçadamente, era) desenhado por Lolô:

http://3.bp.blogspot.com/-CmMq11EO58I/VExAj4jZWOI/AAAAAAAAXAE/9t-S4bpIKW0/s1600/casa_do_lolo2.jpg

Outras resistiram e foram restauradas, como a Residência Belotti, localizada na Rua Dr. Faivre e hoje ocupada por um restaurante:

Influência do modernismo carioca é marca de Lolô Cornelsen

Mas há muito mais do que casas: Lolô ajudou a projetar a Estrada da Graciosa e a Rodovia do Café, quando esteve no Departamento de Estradas de Rodagem. Desenhou campos de golfe, pistas de automobilismo e estádios de futebol – entre os quais o Pinheirão e o Couto Pereira (este último, um projeto que acabou não sendo construído tal como originalmente concebido). 

Antes de se tornar e notabilizar arquiteto e engenheiro, Lolô jogava futebol. E, acredite, jogou no Coritiba e no Atlético – mas foi no rubro-negro em que atuou por mais tempo e como profissional, tendo se tornado torcedor fanático e até desenhado um dos escudos do clube da Baixada.

Lolô partiu no ano passado – mas deixa uma obra que ainda pode ser apreciada casualmente ao se andar pela cidade, ainda bem.  

Helena Kolody, nossa poetisa maior

Thiago Cantarin Moretti Pacheco

Nascida há 109 anos no pequeno município de Cruz Machado, filha dos imigrantes ucranianos Vitória e Miguel, Helena Kolody se muda para Rio Negro ainda em sua infância, lá dando continuidade a seus estudos. Ao concluí-los, se torna professora, lecionando por longo período no ginásio e na escola normal, dando aulas no Instituto de Educação de Curitiba e outros estabelecimentos – e se poucos entre gerações de Curitibanos tiveram o privilégio de ser seus alunos, todos nós pudemos desfrutar de sua obra.

A poesia de Helena Kolody é delicada e também sintética. Ela promoveu um encontro de culturas ao se tornar, reconhecidamente, a primeira mulher, no Paraná, a dominar e publicar poemas no formato “haicai”, o poema curto, “rápido e rasteiro” japonês – e foi homenageada pela comunidade nipônica por isso.

A bibliografia de Helena Kolody começa em 1941, com o poema “A Lágrima” publicado em revistas literárias, e o primeiro livro, “Paisagem Interior”. Kolody viria a publicar outros quatorze volumes, além de participar de várias obras coletivas. Admirada por nomes de vulto, como Drummond e Leminski (que se tornaria um amigo próximo), Kolody é eleita para a Academia Paranaense de Letras em 1991. Dona de inúmeros prêmios e condecorações, mais do que merecidos, Helena Kolody, mais do que isso, ocupa um lugar especial no coração do Paraná.   

Nenhuma borracha apagará o que esse Lápis escreveu

Por Dr. Thiago Cantarin Moretti Pacheco

“Lápis” era, por razões que hoje a correção política nos proíbe de contar, o apelido de Palminor Rodrigues Ferreira. O mais novo de 21 filhos, Lápis começou tocando pandeiro na infância, se apresentando no rádio, e logo mudou para o violão, depois de ganhar o instrumento de um de seus irmãos. Sua primeira composição foi “Vestido Branco”, que escreveu aos 18 anos. Depois, veio o conjunto “Bitten 4”, formado nos anos 60, que o parceiro de composições de Lápis, Paulo Vítola, acabou ajudando a levar ao Rio de Janeiro. Essa parceria, aliás, rendeu cerca de 15 canções, entre as quais “Dia de Arlequim”, “Lençol de Flores” e “Roteiro”.

Funcionário dos Correios, Lápis se notabilizou mesmo como o “Rei da Noite” de Curitiba, dado seu gosto pela boemia e pela proximidade com o público.

Uma das últimas realizações de Lápis foi o musical “Funeral para um Rei Negro” – curiosamente premonitório, pois lápis partiu cedo, aos 35 anos, em decorrência de uma insuficiência cardíaca.

Documentário “Lápis, de cor e salteado” – https://www.youtube.com/watch?v=N_GdbBAYyH0

Adoaldo Lenzi – o pouco conhecido parceiro de Poty

Thiago Cantarin Moretti Pacheco

Poty Lazzarotto dispensa apresentações – mas não podia dispensar o trabalho do artista plástico e vitralista Adoaldo Lenzi. Verdadeiro “braço-direito” de Poty, Lenzi era o executor dos painéis idealizados por Lazzarotto e espalhados pela cidade. Chegado em Curitiba aos 12 anos de idade e vindo de Jaraguá do Sul (SC), Lenzi começou como aprendiz do mestre vitralista João Gener. Em 1970, conheceu Poty Lazarotto, de quem virou parceiro de trabalho. “Poty criava uma pintura e me chamava para estudarmos se era viável transformar em painel a partir de uma demanda. Nós estudávamos juntos e depois eu era o responsável pela obra. Quando acabávamos, dizia ‘Lenzi, hoje nós aprendemos mais um pouco’”.

Lenzi, no entanto, tem uma extensa obra própria em mosaicos e pedra, e em um ramo bastante especializado: vitrais sacros. É de sua autoria, por exemplo, o vitral que retrata o Papa João Paulo II na Igreja de Santo Estanislau, feito em homenagem à visita do Sumo Pontífice a Curitiba em 1980. A obra é constituída de quase 3 mil cacos de vidro em mais de 40 tonalidades, e foi inaugurada em 18 de maio daquele ano, poucos dias antes da visita papal. Lenzi também é responsável pelo maior vitral da américa latina, instalado na Basílica de Caacupê, no Paraguai. Criado em parceria com Osmar Horstmann, o impressionante painel tem 350m², e encanta os peregrinos e visitantes da basílica da padroeira daquele país.

Dalton Trevisan: vampiro e…advogado?

Por Thiago Cantarin Moretti Pacheco

Ele se tornou parte da paisagem da cidade e de seu folclore; sua imagem, disputada por fotógrafos profissionais e amadores, cujo feito maior era reconhecê-lo em algum de seus passeios pelo centro da cidade, disfarçado por boné e óculos escuros; sua casa, quase um ponto de peregrinação: Dalton Trevisan é patrimônio de Curitiba e um de seus maiores autores.

Tudo isso decorre, é claro, do enorme sucesso da obra de Trevisan: dezenas de prêmios literários e respeito mundial nos círculos da literatura e da crítica, ombreando com Antonio Candido, Otto Maria Carpeaux e Mário de Andrade. O Vampiro encabeçou a publicação da lendária revista “Joaquim” e, tendo a cidade e seus habitantes por inspiração, escreveu contos imortais, traduzidos para vários idiomas. A casa cinzenta e de fachada um tanto desanimada e suja, na esquina da Ubaldino do Amaral esconde um gramado verde e bem cuidado – e um segredo não tão bem guardado assim, mas bastante curioso: o vampiro quase se tornou advogado.

Formado pela UFPR, Trevisan escrevia seus contos desde os tempos de estudante – e, depois de formado, militou por quase 10 anos antes de, felizmente, abandonar o meio jurídico e se dedicar inteiramente ao ofício de escritor. Muito melhor assim: não fomos privados de um dos maiores talentos literários da cidade: talvez tenham perdido os tribunais, mas a vida é feita de escolhas (e renúncias).

A obra do Vampiro é prolífica: constituída em sua maioria de contos, há o romance “A Polaquinha” (1985), o único que escreveu, além de versos esparsos em outros volumes, como “Em busca de Curitiba perdida” (1992). Seu apelido veio de um de seus primeiros livros, “O Vampiro de Curitiba” (1965), e a inspiração na cidade é marca indelével de sua escrita – durante uma trajetória que, torcemos, nunca acabasse, e fosse o Vampiro imortal.  

João Turin, nosso escultor maior

Por Thiago Cantarin Moretti Pacheco

Nascido em Morretes, em 21 de setembro de 1878, João Turin pode ser considerado o escultor maior paranaense – tão paranaense, aliás, que, junto com o pintor Frederico Lange (o “Lange de Morretes”) e João Ghelfi, criou o “paranismo”, um movimento artístico de forte identidade local.

Antes disso, entretanto, Turin esteve na Europa por longa temporada. Em 1905, desembarca em Bruxelas para estudar, com uma bolsa do Governo do Paraná, na Real Academia de Belas Artes. O périplo europeu de Turin vai até 1922, período durante o qual conviveu com grandes artistas e personalidades, vivendo por um tempo em Paris.

Em sua vasta obra, se destacam as esculturas de animais selvagens e domésticos, que lhe valeram premiações e elogios – sendo exemplos notáveis os bronzes Tigre Esmagando a Cobra, exposta na Av. Manoel Ribas, e Luar do Sertão, no Centro Cívico. A perfeição e expressividade das formas fizeram com que a primeira fosse premiada no Salão Nacional de Belas Artes de 1944. Outros exemplos marcantes são Felino à Espreita e Marumbi, o retrato de um feroz combate entre dois grandes felinos. A forma humana, por sua vez, está representada em trabalhos emblemáticos como as esculturas que retratam o poeta italiano Dante Alighieri; o cacique Guairacá, figura histórica da colonização do Paraná; e Tiradentes, entre outras. Turin deixou também um acervo de cerca de 180 pinturas – embora considerasse essa uma ocupação secundária.

Em breve, com previsão para coincidir com o aniversário da cidade, serão inaugurados definitivamente no Parque São Lourenço o Memorial Paranista e o Jardim de Esculturas. Este último exibirá reproduções em tamanho maior de 15 esculturas do artista, dando a oportunidade aos visitantes de vislumbrar obras importantes como Marumbi, Homem-Pinheiro e Índio Guairacá.

O acervo de João Turin também pode ser visitado virtualmente neste link.

A grande parceria: Blindagem, Paulo Leminski e a nossa Orquestra Sinfônica

Thiago Cantarin Moretti Pacheco

A Blindagem é, inegavelmente, a grande banda de rock paranaense. Na ativa há mais de 40 anos, sobreviveu a alguns períodos de hiato e inclusive à perda do carismático Ivo Rodrigues, o inesquecível frontman dono de uma potente voz e talento para escrever letras – coisa que, no entanto, nem sempre fazia sozinho. A Blindagem mantinha uma parceria com um de nossos poetas maiores, o emblemático Paulo Leminski. Assim é que algumas das mais inesquecíveis canções da banda foram escritas em colaboração com ele, o mestre dos trocadilhos, dos versos curtos e certeiros.

É o caso de “Não Posso Ver”, “Oração de um Suicida”, e “Marinheiro”, presentes em “Rock em Concerto”, espetáculo histórico que reuniu, em 2007, a Blindagem e a Orquestra Sinfônica do Estado do Paraná no palco do Teatro Guaíra. Mais paranaense, impossível.

O encontro de bandas de rock com orquestra sinfônica não é exatamente uma novidade, com uma das primeiras experiências acontecendo ainda em 1969, no famoso “Concerto for Group and Orchestra”, da banda inglesa Deep Purple. “Rock em Concerto”, no entanto, tem um sabor especial, de barreado e pinhão sapecado, com as nuances rurais do rock da Blindagem sendo perfeitamente assimiladas pelos delicados arranjos orquestrais.

“Rock em Concerto” virou disco e DVD, e é uma ótima pedida para essa sexta-feira: