
Thiago Pacheco
Talvez ainda seja cedo para chamar “A Ponte dos Espiões” (2015) de “filme clássico” – mas atuações excelentes e uma história improvável e instigante talvez garantam seu lugar no panteão das grandes películas.
Dirigido por Steven Spielberg, o longa conta a história – real! – do advogado James B. Donovan (Tom Hanks), um especialista em direito securitário que é recrutado para ser defensor dativo do espião soviético Rudolf Abel (em interpretação notável de Mark Rylance), recentemente descoberto e preso pelo FBI.
Contrariado por ter que atuar fora de sua área de especialidade – e, ainda mais, a defender um inimigo de seu país – Donovan aos poucos se sente à vontade diante da sua tarefa, sendo relembrado de postulados básicos aos quais prestou compromisso – como a universalidade do direito à defesa, por exemplo. Mas, dada a gravidade da acusação que pesava contra seu cliente, ele não consegue evitar sua condenação à morte, usual em casos de espionagem. Sua apelação, contudo, tem sucesso, e ele salva a vida de seu representado.
Quando Donovan finalmente começa a se sentir mais confortável ao defender um inimigo declarado – que, para piorar, tem a disciplina de uma estátua e não coopera com a investigação – eis que seus deveres se tornam muito maiores e mais complexos: de mero defensor dativo, Donovan, por causa de sua experiência prévia como oficial da Marinha, vai se tornar uma espécie de espião-diplomata, incumbido pelo governo dos EUA de negociar a troca de seu cliente, o prisioneiro soviético, por um piloto norte-americano aprisionado pelos soviéticos após o abate de sua aeronave (Frances Gary Powers, conhecido por ser uma das primeiras baixas da guerra fria).
Não se trata, exatamente, de um “filme de tribunal” – pouco se passa nas salas de julgamento – mas é certamente um filme que fala muito de perto à advocacia: sobre a importância desta atividade, e mesmo sua transcendência diante da culpa do cliente e das garantias a que ele tenha um julgamento justo.
Nada disso é tratado levianamente pelo roteiro dos irmãos Joel e Etan Coen – que ainda conseguem inserir excelentes sequencias de ação e suspense em meio a momentos de reflexão e humanidade entre os protagonistas.
Como curiosidade, Rudolf Abel jamais confessou – e muito menos a KGB admitia que ele era um espião. Apenas após sua morte, em 1971, o Estado soviético passou a reconhecê-lo como um herói do povo, retratado em selos, moedas e medalhas comemorativas.
Donovan advogou até seu falecimento, em 1970. Depois de atuar na defesa de Abel e intermediar sua troca pelo piloto da CIA abatido sobre a URSS, ele interviu junto ao governo cubano pela libertação dos combatentes do malfadado ataque à Baía dos Porcos. Se tratava de pouco mais de mil soldados – mas, algum tempo depois da visita de Donovan à ilha caribenha (onde foi recebido pelo comandante Fidel Castro), cerca de nove mil prisioneiros americanos, feitos pela revolução comunista de 1959, foram libertados – o que, sempre é bom lembrar, dá grande dignidade ao lema “contrate um advogado”.
Rudolf Abel (selo soviético)
James B. Donovan com o presidente John F. Kennedy