Dalton Trevisan: vampiro e…advogado?

Por Thiago Cantarin Moretti Pacheco

Ele se tornou parte da paisagem da cidade e de seu folclore; sua imagem, disputada por fotógrafos profissionais e amadores, cujo feito maior era reconhecê-lo em algum de seus passeios pelo centro da cidade, disfarçado por boné e óculos escuros; sua casa, quase um ponto de peregrinação: Dalton Trevisan é patrimônio de Curitiba e um de seus maiores autores.

Tudo isso decorre, é claro, do enorme sucesso da obra de Trevisan: dezenas de prêmios literários e respeito mundial nos círculos da literatura e da crítica, ombreando com Antonio Candido, Otto Maria Carpeaux e Mário de Andrade. O Vampiro encabeçou a publicação da lendária revista “Joaquim” e, tendo a cidade e seus habitantes por inspiração, escreveu contos imortais, traduzidos para vários idiomas. A casa cinzenta e de fachada um tanto desanimada e suja, na esquina da Ubaldino do Amaral esconde um gramado verde e bem cuidado – e um segredo não tão bem guardado assim, mas bastante curioso: o vampiro quase se tornou advogado.

Formado pela UFPR, Trevisan escrevia seus contos desde os tempos de estudante – e, depois de formado, militou por quase 10 anos antes de, felizmente, abandonar o meio jurídico e se dedicar inteiramente ao ofício de escritor. Muito melhor assim: não fomos privados de um dos maiores talentos literários da cidade: talvez tenham perdido os tribunais, mas a vida é feita de escolhas (e renúncias).

A obra do Vampiro é prolífica: constituída em sua maioria de contos, há o romance “A Polaquinha” (1985), o único que escreveu, além de versos esparsos em outros volumes, como “Em busca de Curitiba perdida” (1992). Seu apelido veio de um de seus primeiros livros, “O Vampiro de Curitiba” (1965), e a inspiração na cidade é marca indelével de sua escrita – durante uma trajetória que, torcemos, nunca acabasse, e fosse o Vampiro imortal.  

2 pensou em “Dalton Trevisan: vampiro e…advogado?

  1. Outro baita texto. Desta vez, o direito deu sorte… Uma vez o segui na rua, não tive coragem de lhe falar. Ele já tinha me sacado de longe. Vazei pra não o importunar mais. Anos depois, o encontro no Mercado Municipal, uma mulher furtando umas fotos dele, entrei na frente, ela saiu. Contei-lhe a história de mais uma década antes, pedi desculpas. E ele “tudo bem, é normal.” Me perguntou se eu ia sempre ali, disse que vez em quando. “Vou trazer um livrinho meu pra você”. Agradeci e não tive dúvidas, saquei o ParaFrasear da mochila e disse pra ele ficar com um meu, ele aceitou, sorriu. Pensando que se ele escrevesse um conto no meu livrinho, já valeria ter escrito. Olhei um instante pro lado, ele havia evaporado, suavemente…
    P.S.: a última frase, acho, deve ser uma memória fabricada.

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