
Será que todo CNPJ significa uma empresa? E toda sociedade é empresa? Todo empreendedor é necessariamente uma pessoa jurídica? Usualmente, muitas pessoas responderiam “sim” à maioria das perguntas, se não a todas. Bem, nesse caso, esse informativo pode lhe auxiliar a deixar de confundir esses institutos. O que pode parecer sinônimo, juridicamente apresenta muitas distinções.
As implicações efetivas são muitas e extremamente relevantes à sua sociedade ou empresa e mesmo aos seus negócios. Há consequências relacionadas à responsabilidade pelos riscos, ao patrimônio pessoal, às incidências tributárias, representação legal, forma de registro aplicável, entre outras. Passemos, então, a entender e distinguir esses “termos” que, por vezes, são automaticamente empregados como se fossem iguais.
O que é pessoa jurídica?
Embora possa parecer desnecessário entender o que é uma pessoa jurídica, o intuito aqui é partirmos das distinções e premissas básicas. Nesse sentido, pessoa jurídica é um ente criado pelo Direito para atuar na vida civil como sujeito próprio, distinto das pessoas que o compõem. Ela tem patrimônio, direitos e obrigações próprios: pode ser dona de bens, celebrar contratos e figurar como parte em processos.
O Código Civil afirma essa autonomia de modo expresso: a pessoa jurídica não se confunde com seus sócios, associados, instituidores ou administradores (art. 49-A). É a consagração da independência entre a pessoa jurídica e seus membros portanto. Nem toda pessoa jurídica é empresa. Pela legislação, são pessoas jurídicas de direito privado aquelas listadas no art. 44 do Código Civil:
- associações, que reúnem pessoas para fins não econômicos, como clubes, entidades de classe e ONGs (art. 53);
- sociedades, que reúnem pessoas para uma atividade econômica e a partilha dos resultados (art. 981);
- fundações, formadas por um patrimônio destinado a uma finalidade religiosa, moral, cultural ou de assistência (art. 62);
- organizações religiosas e partidos políticos.
Assim sendo, uma associação, uma fundação e uma igreja são pessoas jurídicas, mas não exercem atividade de empresa. Até mesmo entre as sociedades, nem todas são empresariais, como veremos adiante.
A pessoa jurídica de direito privado passa a existir, isto é, “nasce” com a inscrição do seu ato constitutivo no registro próprio, isto é, em regra, no cartório de registro civil de pessoas jurídicas (RCPJ) ou na Junta Comercial (art. 45). Sem registro, não há personalidade jurídica, porém, esse registro não é a inscrição no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas – CNPJ, mas um evento anterior.
Empresa é atividade e não um local ou uma coisa
Em sentido jurídico, empresa é a atividade econômica organizada, exercida profissionalmente para produzir ou circular bens ou serviços (Código Civil, art. 966). Quando dizemos “a empresa X contratou”, falamos por comodidade ou figura de linguagem (metonímia): tecnicamente, a empresa é o que se faz, não quem faz. Ela não é pessoa natural e não assina contratos diretamente.
Três elementos marcam a atividade empresarial: profissionalismo (habitualidade e finalidade de ganho), organização (combinação de capital, trabalho, insumos e tecnologia) e atividade econômica de produção ou circulação de bens ou serviços. Note-se que a obtenção de lucro não caracteriza a atividade empresarial.
O ordenamento jurídico brasileiro exclui da caracterização de empresa as profissões intelectuais de natureza científica, literária ou artística (como médicos, advogados, engenheiros, arquitetos ou artistas), salvo se o exercício da profissão constituir elemento de uma organização maior (por exemplo, um grande hospital privado que passa a funcionar com estrutura empresarial)
Empresário é quem exerce a empresa
O empresário é quem exerce profissionalmente a atividade empresarial (art. 966). Pode ser uma pessoa física, o empresário individual, ou uma sociedade, a sociedade empresária.
Como referido acima, quem exerce profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artística, em regra não é empresário, ainda que conte com empregados em sua estrutura. Isso se altera quando o exercício da profissão constitui elemento de empresa, ou seja, quando a atividade intelectual passa a ser apenas uma peça de uma organização empresarial mais ampla (art. 966, parágrafo único). Um médico que atende em seu consultório não é empresário; um grande hospital, que organiza capital, equipe e estrutura para prestar serviços de saúde em escala, é.
Nem toda sociedade é empresa
Pelo contrato de sociedade, duas ou mais pessoas se obrigam a contribuir, com bens ou serviços, para o exercício de uma atividade econômica e para a partilha dos resultados entre si (art. 981). Esse conceito tradicional foi revisto há alguns anos, quando as sociedades passaram a poder ser também unipessoais, ou seja, contar com um único titular. Vale esclarecer que a EIRELI foi extinta pela Lei 14.382/2022, de modo que essas sociedades foram automaticamente convertidas em sociedades unipessoais, ainda que não tenham alterado seus atos constitutivos.
O Código Civil divide as sociedades em duas espécies (art. 982):
- sociedade empresária: tem por objeto o exercício de atividade própria de empresário e é registrada na Junta Comercial (Registro Público de Empresas Mercantis);
- sociedade simples: reúne todas as demais e é registrada no Registro Civil das Pessoas Jurídicas (art. 1.150).
Por determinação legal, a sociedade anônima é sempre empresária e a cooperativa é sempre simples (art. 982, parágrafo único). A sociedade empresária deve adotar um dos tipos previstos em lei, sendo os mais comuns a sociedade limitada e a sociedade anônima (art. 983). Já a sociedade simples pode adotar um desses tipos, com exceção da anônima, ou seguir as regras próprias da sociedade simples (arts. 997 e seguintes).
Na prática, uma clínica formada por médicos ou um escritório de arquitetura pode ser uma sociedade perfeitamente regular sem ser “empresa” no sentido legal. As sociedades de advogados, por sua vez, seguem um rito registral específico, que não é realizado em cartório, mas junta à OAB (Lei 8.906/1994, art. 15).
Essa distinção tem efeito prático relevante. A rigor, apenas o empresário e a sociedade empresária se submetem à falência e podem pedir recuperação judicial (Lei 11.101/2005, art. 1º). O Superior Tribunal de Justiça, no entanto, admite que cooperativas de crédito podem ser submetidas a processo de falência. Por outro lado, fundações e associações não podem requerer recuperação extrajudicial.
Existem, ainda, outros tipos de sociedade que não são registradas e, consequentemente, não tem personalidade jurídica. É o caso da sociedade em comum, que pode ser uma sociedade de fato ou irregular (arts. 986 a 990), e da sociedade em conta de participação (arts. 991 a 996). Nesses casos, cabe destacar que os sócios da sociedade em comum) e o sócio ostensivo, na conta de participação, respondem pessoalmente pelas obrigações (arts. 990 e 991).
Empresário individual e MEI não são pessoa jurídica
O empresário individual é a pessoa física que exerce empresa em nome próprio, inscrita no Registro Público de Empresas Mercantis antes de iniciar a atividade (arts. 966 e 967). Ele recebe um CNPJ, mas não cria um ente separado de si mesmo, de forma que seu patrimônio pessoal responde, sem limite, pelas dívidas do negócio.
O MEI é o empresário individual caracterizado como microempresa na forma da Lei Complementar nº 123/2006 (art. 18-A e 68). Por essa legislação, estabelece-se uma modalidade simplificada para o exercício solo da atividade empresarial, com limite anual de faturamento, tributação reduzida e rol restrito de atividades. Continua sendo pessoa física, com a mesma responsabilidade ilimitada.
Aqueles que desejam separar o patrimônio pessoal do empresarial, precisam constituir uma pessoa jurídica, como a sociedade limitada ou, a depender da estrutura pretendida, uma sociedade anônima, por exemplo.
CNPJ é cadastro
O CNPJ é um registro administrado pela Receita Federal para identificar contribuintes e outros entes com relevância fiscal (atualmente disciplinado pela Instrução Normativa RFB 2.119/2022). Ter CNPJ não torna o titular nem empresa, nem pessoa jurídica.
Possuem CNPJ, por exemplo:
- pessoas físicas: o empresário individual e o MEI;
- entes sem personalidade própria: sociedades em conta de participação, consórcios (Lei 6.404/1976, arts. 278 e 279), fundos de investimento (Código Civil, arts. 1.368-C e seguintes) e condomínios edilícios (arts. 1.331 e seguintes);
- pessoas jurídicas que não exercem empresa: associações, fundações, organizações religiosas, partidos políticos e sociedades simples;
- pessoas jurídicas empresárias: sociedades limitadas, sociedades anônimas e demais sociedades empresárias.
A personalidade jurídica, como visto, nasce do registro dos atos constitutivos (art. 45 do Código Civil), e a inscrição no CNPJ vem depois, como consequência. O CNPJ identifica o contribuinte e quem confere personalidade é o registro.
Resumo
| Conceito | O que é | É pessoa jurídica? | É empresa? |
| Empresa | Atividade econômica organizada (art. 966) | Não, é atividade | É o próprio conceito |
| Empresário | Quem exerce a empresa | Depende | Exerce empresa |
| Sociedade empresária | Sociedade que exerce empresa; registro na Junta Comercial | Sim | Sim |
| Sociedade simples | Sociedade de objeto não empresarial; registro no RCPJ ou na OAB | Sim | Não |
| Empresário individual | Pessoa física que exerce empresa | Não | Sim |
| MEI | Empresário individual (LC 123/2006) | Não | Sim |
| Associação e fundação | Entes sem fim lucrativo (arts. 53 e 62) | Sim | Não |
| CNPJ | Cadastro da Receita Federal | Não confere personalidade | Não indica empresa |
Por que isso importa para você?
A escolha do formato para empreender define não apenas a estrutura contratual a ser adotada, mas também quem responde pelas dívidas, como o negócio é tributado, onde deve ser registrado, como se organiza a sucessão, se há possibilidade de recuperação judicial, as responsabilidades assumidas etc.
Em síntese, antes de iniciar um negócio, reorganizar um grupo familiar empresarial ou contratar com alguém que “tem CNPJ”, vale confirmar com quem, de fato, você está lidando: uma pessoa jurídica, uma pessoa física ou um ente sem personalidade. Esse será um ponto de partida que pode ser decisivo em muitos aspectos também para o sucesso da sua sociedade (que, como dito, pode ser empresarial ou não).
A equipe de direito societário do Prolik Advogados está à disposição para avaliar a modalidade mais adequada ao seu caso, de acordo com as peculiaridades que devem ser examinadas caso a caso.





