Consequências de um julgamento: “Um Sonho de Liberdade”.

Thiago Pacheco

Um banqueiro bem-sucedido é condenado injustamente a duas penas perpétuas de prisão por ter, supostamente, assassinado sua esposa e o amante, ao flagrá-los juntos – no entanto, é no curso desta provação que ele encontra esperança, e a irradia a seus companheiros de cárcere. Baseado em um conto de Stephen King, “Um Sonho de Liberdade” (“Shawshank Redemption”, 1994) é frequentemente citado em listas de filmes memoráveis, mas foi um fracasso de bilheteria, concorrendo com “Pulp Fiction” e “Forrest Gump” em seu lançamento. A passagem do tempo, no entanto, tornou o filme um clássico.

Após sua condenação, o banqueiro Andy Dufresne (Tim Robbins) é enviado à prisão de Shawshank, um antigo estabelecimento carcerário no estado americano do Maine. Lá, consegue manter o sangue frio em meio a criminosos perigosos e sobreviver, ganhando a admiração de Red (Morgan Freeman), um presidiário antigo que é uma espécie de “contrabandista” entre seus colegas, conseguindo itens de impossível obtenção na cadeia graças a seus contatos e frequentes trocas de favores. Dufresne também se torna amigo de um dos internos mais antigos na instituição, Heywood (William Sadler), que é responsável pela biblioteca da cadeia.

Com o tempo, Dufresne chama a atenção do diretor do estabelecimento, o implacável Samuel Norton (Bob Gunton), que recruta seus serviços de especialista em finanças para a escrituração de operações suspeitas feitas com dinheiro que o diretor obtém explorando ilegalmente a mão de obra dos presos em programas de “reabilitação”. Mas não é apenas o diretor que percebe a utilidade das habilidades de Dufresne: a essa altura, ele já é o contador informal de grande parte dos guardas da cadeia de Shawshank e até de estabelecimentos vizinhos, preenchendo as declarações de imposto de renda e dando consultoria financeira aos policiais.

Utilizando sua posição de prestígio, Dufresne consegue melhorias na biblioteca do presídio, começa um programa de alfabetização dos internos que não sabem ler, e se torna uma figura querida por todos – com algumas exceções, é claro: uma violenta gangue conhecida como “As Irmãs” quase o mata, mas as consequências vêm rápido, por via do guarda Hadley (Clancy Brown), o primeiro “cliente” dos serviços de consultoria informal de Dufresne. 

Aos poucos, mesmo diante da pena eterna, o protagonista passa a alimentar a esperança que, de alguma forma, será livre. Seu amigo Red, no entanto, é mais realista: depois de ter falhado em dezenas de oportunidades de obter livramento condicional, ele aconselha Dufresne a não cultivar semelhante expectativa, e se acostumar com uma dura realidade: a de que a cadeia será, para sempre, a sua casa.

Será?

Um dos pupilos do programa de alfabetização criado por Dufresne, o jovem ladrão Tommy Williams (Gil Bellows) se descobre a prova viva de que o protagonista foi condenado injustamente. O que parecia um problema resolvido passa a parecer novamente insolúvel, quando o diretor Norton, desejoso de manter os serviços contábeis de Dufresne, forja uma tentativa de fuga de Williams, que é morto a tiros por um guarda da muralha do presídio. O desalento é grande – mas a persistência de Dufrense é maior, e um item aparentemente inofensivo que Red obteve para ele logo no início do filme se revela o esteio de sua esperança, que acaba, por fim, por contagiar seu melhor amigo.

“Um Sonho de Liberdade” não é propriamente um “filme de tribunal” – seria mais precisamente qualificado como um filme “pós-tribunal”, o retrato do que um erro judicial é capaz de causar, para o bem e para o mal, e de como uma grande injustiça, diante da perseverança de um homem, pode se transformar em pura esperança. 

Andy Dufresne e seu amigo, Red.
A surpresa do Diretor Norton.